Pai?

8h26
O som de um serrote ao fundo o fez acordar de um delicioso sonho matinal. Indagou-se por um instante, mas não lutou contra o sono que ainda havia.
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9h17
Marteladas fizeram-no despertar novamente. Mas deduziu que talvez ainda estivesse em sua cabeça o bate-estaca exaustivo da boate da noite passada.
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10h30
O barulho do vidro tocando agressivamente o chão o fez pular da cama. Tentou imaginar o que seu gato vira-latas havia aprontado na cozinha desta vez. Resolveu deixar para mais tarde a apuração dos danos, afinal, era segunda-feira, seu dia de folga, e não precisava ter pressa.
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11h45
O cheiro de peixe frito invadiu suas narinas sem pedir licença. Gostava do cheiro de peixe frito, mas não gostava do cheiro de peixe de frito desejando-lhe ‘bom dia’.
‘A vizinha prepara o almoço cedo demais’, pensou, pouco antes de voltar a dormir.
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12h10
A vinheta grosseira do noticiário regional fez tremer as paredes do quarto. A TV estava num volume tão alto, que era possível ouvir claramente os últimos dados da pesquisa do Ibope para as eleições municipais. Assustou-se. Mas desta vez resolveu não pensar. Tinha esse direito, era segunda.
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12h55
Uma voz conhecida falava ao telefone e parecia exageradamente equalizada por uma euforia bárbara. Desta vez levantou-se, enrolou-se no lençol e foi até a sala.

- Pai?
- Oi!
- O que você está fazendo aqui?
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Foi assim que descobriu que seu pai havia se aposentado. Naquele momento soube que seus dias de folga jamais seriam os mesmos.

1 comentários:

Marina disse...

seria essa uma aposentadoria definitiva?