Burton para maiores


Tim Burton não é um cara normal e ele nunca fez questão de esconder isto. Mas sua visão obscura e particular da realidade sempre lhe renderam ótimos filmes.
Passeando pela linha tênue entre o fantástico e o non-sense, Burton fez de sua filmografia uma deliciosa leva de pequenas obras de arte que ao mesmo tempo encantaram o público e conquistaram a crítica. Seja com personagens exóticos (Eduard Mãos-de-tesoura, Ed Wood, Beatlejuice), contos de fadas sombrios (O Estranho Mundo de Jack, A Noiva Cadáver, A Lenda do Cavaleiro sem Cabeça) ou mesmo dando sua versão para histórias já conhecidas (Planeta dos Macacos, A Fantástica Fábrica de Chocolate, Batman), Burton tornou-se cultuado por realizar obras pop, sem nunca deixar de lado sua visão dark e macabra, marca registrada em todos os seus filmes.
Talvez por isso Sweeney Todd - O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet seja tão difícil de acompanhar (que o diga o grande público que abandonou a sessão na metade da projeção). O filme tem todas as características burtonianas: a história fantástica, a fotografia escura, a cuidadosa direção de arte que abusa do gótico, os personagens nada convencionais, o humor negro e, é claro, Johnny Depp no papel do protagonista. Mas, desta vez, Burton não preocupou-se em facilitar as coisas para o público e tratou de recriar a tragédia do personagem título de forma caótica e impiedosa, o que, somando-se às já citadas peculiaridades do diretor, faz de Sweeney Todd um filme pesado e de difícil aceitação.
Baseado no musical de Stephen Sondheim, Sweeney Todd conta a história do barbeiro londrino Benjamin Barker (Johnny Depp), um jovem sonhador e tolo, como ele mesmo faz questão de frisar, que tem sua família destruída por um impiedoso juiz e é obrigado à passar 15 anos numa prisão. Anos passam e o desejo de vingança faz Barker assumir a identidade de Sweeney e, de volta à Londres, trata de arquitetar um plano para destruir os responsáveis por sua desgraça. Com a ajuda de Mrs. Lovett (Helena Bonham Carter, excelente), dona de uma loja de tortas, ele inicia um jogo desenfreado que culmina numa apoteótica tragédia.
Sweeney Todd, enquanto musical, já trazia uma alta bagagem de pessimismo e frieza, o que é claramente expressado nas belas canções da trilha sonora. Tristonhas, quase depressivas, as músicas são um retrato cantado de toda a amargura e decadência do personagem central. Não há, portanto, números musicais empolgantes e excessivamente coreografados como em Moulin Rouge, por exemplo. Ao contrário do longa de Bhaz Lhurman, a cantoria em Sweeney Todd tem função narrativa na história, e não meramente ilustrativa (embora em alguns momentos o instrumental parece sobresair-se às vozes).
Quanto ao elenco, ninguém viveria o papel de Barker melhor que Johnny Depp (vencedor do Globo de Ouro e indicado ao Oscar de melhor ator). Ao longo de sua carreira Depp tomou gosto por personagens estranhos e é expert em criar figuras fortes e marcantes, dessas que ficam na nossa mente por um bom tempo. Mas quem surpreende mesmo é Helena Bonhan Carter, esposa de Tim Burton e que sempre está presente em seus filmes, na maioria das vezes em papéis menores. Aqui, porém, Carter faz de Mrs. Lovett a personagem mais adorável e cativante da história e merece os devidos créditos. No mais, há Alan Rickman e Timothy Spall como uma dupla de assustadores vilões; Sacha Baron Cohen (o Borat), que rouba a cena numa participação pequena, porém indispensável; Jamie Campbell Bower e Jayne Wisener, os "pombinhos" da trama, que não tem muita vez neste universo repleto de crueldade e ira.
Sweeney Todd é o longa no qual Tim Burton se permitiu alcançar extremos: é de longe seu filme mais sombrio, mais apático, mais violento, mais sádico e mais pessimista. Exatamente o oposto de "Peixe Grande", seu fruto mais dócil e romântico.
Em Sweeney Todd não há encanto, não há magia e muito menos final feliz. Sua natureza sombria está elevada à décima potência e é óbvio que isso não ocorreu por acaso. O filme é intencionalmente provocativo, chocante e depressivo; sem dúvida o mais corajoso e subversivo da carreira de Tim Burton. Mas isso não quer dizer que seja o melhor.
Filme: Sweeney Todd – O Barbeiro Demoníaco da Rua Fleet
Nota: 8,0

2 comentários:

Lívia disse...

não gostei da nota q vc deu...
como sempre...aheuhuaeha
bjuss

Nelson disse...

Acho que você foi muito duro com Tim, acho que ele fez algo diferente, um musical desse estilo creio que ninguém fará igual. Eu daria um 9,5!


Gostei do seu blog, nota 10!!!
abraço meu caro